Década de 70

O Milagre Brasileiro desencadeia uma atividade econômica acelerada e um mercado de consumo excitado que foram fundamentais, segundo Edgard Luiz de Barros, para a efervescência das representações da moda no Brasil dos anos 70.

No início desse período, vemos o ufanismo alimentado pela vitória na Copa do Mundo, o ?Brasil ame-o ou deixe-o?, o consumismo e a euforia que não demoraram a entrar em choque com a censura e perseguições políticas.

Nesta década, a Rede Globo se consolida. Quarenta por cento das casas já tinha televisão fazendo com que o Brasil se tornasse um dos mais dinâmicos mercados de TV do terceiro mundo, de acordo com dados citados por Edgard Luiz de Barros.

Na moda começa a profissionalização. As Butiques se firmaram e criam suas próprias confecções. Para Joffily, nesse momento começa a criação de roupas nacionais:

Confecções de luxo: aqui começa, propriamente dita, a criação de roupas nacionais, o estilismo. Destaque para o Grupo Moda-Rio, no início dos anos 70, o primeiro núcleo organizado de estilistas ? sem uma unidade estética, é verdade ? reunindo esforços para conquistar espaço para a sua produção dentro do mercado nacional. O público alvo era uma classe média de maior poder aquisitivo, aproveitando a ascensão propiciada pelo chamado ?milagre econômico?. É o momento de fundação do prêt-à-porter nacional. Marília Valls é a  criadora da grife Blu-Blu, ícone dos anos 70 em Ipanema.

Nesse processo de legítimas criações nacionais está a tanga, nascida em 1974, em Ipanema, logo exportada para outros países.


No início dos anos 70, a modelo Rose di Primo inova. Ao cortar as laterais da calcinha e amarrá-las, cria a tanga, que se tornou famosa em todo o mundo.

Leila Diniz gera escândalo ao aparecer grávida na praia e de biquíni, em 1971

Em 1972 a Rhodia promoveu o Brasilian Nature, onde os mais famosos pintores do país estamparam tecidos para serem figurinizados por costureiros igualmente conhecidos.

Paradoxalmente, os anos 70 foram sinônimos de crescimento e internacionalização da economia, desta forma deixou de ser interessante falar de moda autenticamente brasileira? como estratégia de venda das grandes produtoras de matéria-prima. Assim, empresas como a Rhodia optaram por reconhecer essa abertura na cadeia têxtil e tentam sutilmente reduzir a dispersão através da pedagogia do estilismo industrial :

convidando a francesa Marie Rucki a visitar periodicamente o Brasil e a ensinar montagem de carnês de tendências, estimulando a criatividade do estilista brasileiro na ?conciliação? entre a moda brasileira e as tendências emanadas de Paris.

Momento que surge Zuzu Angel, estilista mineira, que segundo Joffily, foi precursora, em retratar o instinto de nacionalidade em suas criações e também, a primeira criadora de roupas brasileiras a vender sua produção em Nova York. Na época, criou uma coleção inspirada em temática nacional  com Baianas, Lampiões e Marias Bonitas. Suas criações eram marcadas com motivos de anjos e situadas em um meio-termo entre a alta-costura e o prêt-à-porter.


Zuzu Angel costumava dizer que sua moda era para mulheres que em nada lembravam as magérrimas manequins. Ela teve seu filho desaparecido, vítima da ditadura militar, jogando toda sua força na denuncia e busca do cadáver do filho, fazendo o primeiro desfile-denúncia da história da moda, realizado em Nova York, apresentando tanques, pássaros aprisionados, anjos mutilados, caveiras e manchas de sangue bordadas sob vestidos de gaze verde-amarela, deixando assim sua mensagem de cunho artístico e político. Em 1976, um atentado terrorista forjado de acidente de carro matou a estilista.




Zuzu Angel


Luís de Freitas, no Rio, passou a ser a referência na moda masculina brasileira ao lançar propostas inovadoras e inusitadas, com sua marca Mr. Wonderful, alcançando também reconhecimento internacional. Neste período, para João Braga, prevalece a identidade da moda jovem e o aspecto de contestação. Em circuito mundial acontece o movimento hippie.

Com a chegada do Píer, em 1971 e todos os acontecimentos que marcaram o novo point de Ipanema, a marca era a preferida dos hippies de butique, sendo Gal Costa a artista que vestia a marca e símbolo também do Píer e das Dunas do Barato. Em 1973, Adriano Aquino ganhou um prêmio do governo francês e partiu para Paris, dando assim o encerramento da marca.

Marília Valls, a dama da moda carioca. Descendente de uma família que se mantinha de aparências: divorciada e sem o dinheiro de seu pai, viu-se obrigada a trabalhar em uma época em que as mulheres não trabalhavam e não se divorciavam. Marília fez carreira na indústria têxtil e mudou o mercado da moda no Brasil. Cansada de ser empregada e já com um nome forte no mercado, decidiu pegar o dinheiro que tinha juntado e abriu a Blu-Blu, nome proveniente pela falta de dinheiro, fato que só permitia a criação de blusas.

Depois expandiu suas criações para vestidos de rendas, aventais tingidos por artistas plásticos e tudo o que pudesse ser usado do umbigo para cima. A Blu-Blu desenvolveu um estilo inovador, uma moda de vanguarda, que era apoiada em aproximadamente cinco elementos estéticos: o elemento retrô e nostálgico; as cores de suas estamparias que misturavam cores jamais antes propostas como laranja e o turquesa; o toque branco nas coleções, inspirado em nossa cultura e pelo sol carioca; o toque romântico das rendas e babados, também inspirado por nossa cultura e folclore e por último o elemento lúdico e da fantasia imposto desde a decoração de sua loja, como nos desfiles que criava na rua, em frente à casa branca na antiga rua Montenegro hoje, Vinícius de Moraes, número 111.

Os desfiles eram grandes acontecimentos que paravam o bairro pela grandeza do seu show, anunciando o lançamento de uma nova coleção. Modelos como Monique Evans, Xuxa Lopes, Silvia Pfifer, Ísis de Oliveira, Débora Bloch, Beth Lago, entre outras executavam coreografias dirigidas por Paulo César de Oliveira e Biza Vianna, filha mais velha de Marília. Por questões financeiras, a Blu-Blu fechou suas portas em 1987. Marília nunca saiu do cenário da moda. Junto a toda sua experiência e aos anos que fez parte do grupo Moda-Rio, sentiu-se preocupada com a formação de profissionais deste setor. Criado em 1978, devido a fragilidade que o comércio da moda enfrentava naquela época sensível em todos os campos, estilistas e comerciantes em ascensão no momento se uniram buscando uma estrutura de base para melhorarem os negócios.

O grupo Moda-Rio tinha como objetivo melhorar o espaço de divulgação de seus trabalhos e era formado por Marília Valls, Luís de Freitas, José Augusto Bicalho, Teresa Gureg, Beth Brício, Sônia Mureb, Marco Rica, Ana Gasparini e Suely Sampaio. Em estilo, cada um tinha a sua individualidade, mas em objetivo de melhoria do mercado, de pesquisa de tecidos, tendências, modelos de estratégias mercadológicas, todos compartilhavam juntos. A repercussão do grupo foi inevitável e foi o grande lançador das discussões de moda e das associações voltadas para este mercado. Como conseqüência, consolidava o Rio de Janeiro como grande centro da moda brasileira. O grupo foi dissolvido em 1982, no auge de um período de recessão marcado pelo declínio do então regime militar. Paralelamente, o Rio de Janeiro perdia seu lugar de centro da moda nacional. Em 1989, Marília passou a coordenar o setor de estilismo do Núcleo de Moda da faculdade Cândido Mendes, na cidade do Rio de Janeiro.

Fonte:www.fashionbubbles.com
Por: Denise Pitta




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